segunda-feira, 2 de maio de 2011

Texto da peça "Pluft, O Fantasminha" de Maria Clara Machado

PLUFT, O FANTASMINHA


Personagens

Sebastião
Julião
João
Mãe Fantasma
Pluft, o fantasminha                                                          
Gerúndio, tio do Pluft
Perna de Pau, marinheiro pirata
Maribel, menina

PRÓLOGO

(O prólogo se passa à frente da cortina. Pela esquerda surgem os três marinheiros amigos, meio bêbados, cantando. O da frente é Sebastião, o mais corajoso. Leva um toco de vela aceso ou um lampião. Segue-se Julião, segurando um mapa. Deve-se ouvir a canção antes de avistá-los).

CANÇÃO

Ainda era uma criança,
Quando saiu para o mar
A aprender a navegar
O Capitão Bonança!
Depois morreu no mar,
Deixou de navegar.
Onde está a herança
Do Capitão Bonança!?
Quando aparecem no palco, devem estar acabando o canto.

SEBASTIÃO - Deve ser aqui! Veja o mapa, Julião!
JULIÃO - Veja você, Sebastião. (Troca o mapa pela vela do Sebastião)
SEBASTIÃO - É melhor o João ver; João é o encarregado do mapa. (Troca a garrafa com João e bebe um traguinho. Fazem várias vezes este jogo de trocar).
JOÃO - (Com o mapa) Uma casa perdida na areia branca perto do mar verde... Deve estar por perto... Pega na luneta, Julião.
JULIÃO - (Olhando pelo gargalo da garrafa) Estou vendo um mar calmo com
algumas ondinhas brancas.
SEBASTIÃO - Então vamos!
JOÃO - (Desanimado) Já andamos muito! Pobre Maribel!
JULIÃO - Pobre Maribel!
SEBASTIÃO - Pobre Maribel!
(Os três se abraçam e sentam-se no chão)
SEBASTIÃO - (Levantando-se) Precisamos salvar a neta do nosso grande capitão Bonança!
JOÃO - (Mesmo) Precisamos achar o tesouro da neta do grande Capitão Bonança!
JULIÃO - Precisamos pegar o ladrão do tesouro da neta do grande capitão Bonança!
SEBASTIÃO - Viva o grande capitão Bonança!
TODOS - Vivaaaa!
SEBASTIÃO - (Para Julião) Vamos!
JULIÃO - (Para João) Vamos!
JOÃO - (Para alguém imaginário que o segue) Vamos!
(Os três recomeçam a cantar e saem pela direita, descendo o proscênio). (Fim do prólogo).

ATO ÚNICO

(Cenário: Um sótão. À direita uma janela dando para fora de onde se avista o céu. No meio, encostado à parede do fundo, um baú. Uma cadeira de balanço. Cabides onde se vêem, pendurados, velhas roupas e chapéus. Coisas de marinha. Cordas, redes. O retrato velado do capitão Bonança. À esquerda, a entrada do sótão. Ao abrir o pano, a Senhora Fantasma faz tricô, balançando-se na cadeira, que range compassadamente. Pluft, o fantasminha, brinca com um barco. Depois larga o barco e pega uma velha boneca de pano. Observa-a por algum tempo).

PLUFT - Mamãe!
MÃE - O que é, Pluft?
PLUFT - (Sempre com a boneca de pano) Mamãe, gente existe?
MÃE - Claro, Pluft. Claro que gente existe.
PLUFT - Mamãe, tenho tanto medo de gente! (Larga a boneca)
MÃE - Bobagem, Pluft.
PLUFT - Ontem passou lá embaixo, perto do mar, e eu vi.
MÃE - Viu o que, Pluft?
PLUFT - Vi gente, mamãe. Só pode ser. Três.
MÃE - E você teve medo?
PLUFT - Muito, mamãe.
MÃE - Você é bobo, Pluft. Gente é que tem medo de fantasma e não fantasma que tem medo de gente.
PLUFT - Mas eu tenho.
MÃE - Se seu pai fosse vivo, Pluft, você apanharia uma surra com esse medo bobo. Qualquer dia destes eu vou te levar ao mundo para vê-los de perto.
PLUFT - Ao mundo, mamãe?!
MÃE - É, ao mundo. Lá embaixo, na cidade...
PLUFT - (Muito agitado vai até a janela. Pausa) Não, não, não. Eu não acredito em gente, pronto...
MÃE - Vai sim, e acabará com estas bobagens. São histórias demais que o tio Gerúndio conta para você.
(Pluft corre até um canto e apanha um chapéu de almirante)
PLUFT - Olha, mamãe, olha o que eu descobri! O que é isto?!
MÃE - Isto tio Gerúndio trouxe do mar.
(Pluft fora de cena continua a descobrir coisas, que vai jogando em cena: panos, roupas, chapéus etc.)
PLUFT - Por que tio Gerúndio não trabalha mais no mar, hem, mamã?
MÃE - Porque o mar perdeu a graça para ele...
PLUFT - (Sempre remexendo, descobre um espartilho de mulher) E isto, mamãe, (aparecendo) que é isso? Ele trouxe isto também do mar? (Coloca o espartilho na cabeça e passeia em volta da mãe).
MÃE - Pluft, chega de remexer tanto nas coisas...
PLUFT - (Larga o espartilho de mulher no chão e passeia na cena à procura do que fazer) Vamos brincar, tá bem? Finge que eu sou gente. (Veste-se de fraque e de cartola)
MÃE - (Sem vê-lo) Chega de fazer desordem, meu filho. Você acaba acordando tio Gerúndio. (Ela olha para o baú)
PLUFT - (Pé ante pé, chega por detrás da cadeira da mãe e grita) Uuuuh! (A mãe leva um grande susto e deixa cair as agulhas e o tricô) Eu sabia! Eu sabia que você também tinha medo de gente. Peguei! Peguei! Peguei mamãe com medo de gente... Peguei mãe com medo de gente!...
MÃE - (Procurando de gatinhas os óculos e o tricô) Pluft, você quer apanhar? Como é que eu posso acabar o meu tricô para os fantasminhas pobres, se você não me deixa trabalhar?
(A mãe volta à cadeira bufando e Pluft volta à janela pensativo).
PLUFT - Eu não iria nem a pau.
MÃE - Onde, Pluft?
PLUFT - Trabalhar no mar. Tenho medo de gente e de mar também. É muito grande e azul demais... (De repente Pluft se assusta) Oh! (Corre até a mãe sem voz e torna à janela) Mamãe, olha lá. Iiii... Estão vindo (Corre e senta-se no colo da mãe) Mamãe, mamãe, acode! Eles estão vindo... Vindo do mar... E subindo a praia.
MÃE - (Desvencilhando-se de Pluft, que continua agarrado à sua saia, dirige-se até a janela) Não é possível. Desde que nos mudamos para cá ninguém subiu aqui! (pausa) É verdade. Lá vêm eles. (Dirige-se rapidamente para um canto, de onde tira um telefone) Zero-zero-zero-zero, alô, prima Bolha? (Toda a vez que a Senhora Fantasma fala ao telefone ouvem-se em resposta barulhos de bolhas d'água, o que é conseguido soprando palavras por um tubo de borracha dentro d'água) Sou eu. Olha, uma surpresa hoje, aqui. Adivinha só. Gente! Ainda não sei. Sim... Sim... Telefono, querida. Adeus, meu bem, eles estão se aproximando. Vem, Pluft.
PLUFT - (Tremendo) Que medo... Que medo... Que medo...
MÃE - (Abrindo o baú) Acorda, Gerúndio. Vem gente!
GERÚNDIO - (Levantando-se, espreguiçando) Uuuuuu! Tô com um sono!...
PLUFT - De verdade, tio Gerúndio. Gente mesmo. O mundo todo vem aí!
GERÚNDIO - (Sonolento) Tô com sono!... (Fecha a tampa do baú e desaparece, roncando) (Pluft e a mãe põem-se a escutar. Ouve-se o barulho de passadas pesadas. Os dois desaparecem. Ouve-se o canto do marinheiro Perna de Pau).
CANÇÃO
A menina Maribel, bel, bel!
Tem os olhos da cor do céu, céu... céu...
E os cabelos cor de mel... mel... mel...
(Pela porta do sótão entra um marinheiro meio velho e forte, empurrando uma menina frágil amarrada pelas mãos com um lenço vermelho passado na boca. O velho marinheiro amarra a menina à cadeira, e tira o mapa da sacola que leva nas costas).
PERNA DE PAU - É aqui mesmo. Foi aqui que o Capitão Bonança escondeu o
tesouro. (Corre até a janela) Aqueles três patetas nunca descobrirão esta casa. Então eles queriam ser mais espertinhos do que o marinheiro Perna de Pau, hem? Queriam salvar a netinha do Capitão, hem? Mas o Capitão Bonança Arco-Íris morreu e quem vai entrar no tesouro sou eu! Está ouvindo? Sou eu. Então o vovô Bonança pensou que podia deixar o mapa do tesouro com a netinha e com os três patetas, hem? Ah! Ah! Ah!
Então o capitão vovô não sabia que o marinheiro Perna de Pau estava à espreita? Há dez anos que eu espero. Estou cansado, também, ora... Sabem lá o que é esperar 10 anos pelo tesouro do navio fantasma? (Começa a procurar) Aqui está o chapéu do Capitão Bonança! (Põe o chapéu e faz continência, depois, aos brados, imitando capitão de navio) Levantar velas! Carrega punhos aos papafigas! Afrouxar a bujarrona! Entra a bombordo, agüenta a guinada! Ah! Ah! Ah! Agora o capitão sou eu... (Escurece de repente) Que é isto? (Vai à janela) Ainda é cedo, sol dorminhoco! Que escuro! Oh! Eu me esqueci de trazer a lanterna. Temos que achar o tesouro. (Procurando na sacola)
Quem tem uma lanterna? (Para a menina) Você tem? (Ela faz que não) (Mal humorado) Então preciso ir até a cidade buscar uma lanterna. Você vai ficar aí presinha na cadeira. Mas não precisa fazer essa cara de vítima, que o Capitão Perna de Pau é bonzinho... Ele não vai te matar não... Ele vai... Ele vai casar com você... Vamos comprar outro navio e vamos navegar... Navegar... Navegar... (Faz a mímica de um barqueiro remando) Ninguém te achará nunca! A neta do Capitão Bonança vai navegar com o Capitão Perna de Pau... Vou buscar a lanterna e já volto... Navegar... Navegar... Navegar... (Dá uma gargalhada e sai assobiando a "Menina Maribel").
(A menina começa a chorar baixinho, desvencilhando-se na cadeira, tira a mordaça e corre até a janela).
MARIBEL - Socorro! Socorro! Socorro! João! Julião! Sebastião! Meus amigos... Me salvem!
(Sempre choramingando, Maribel com muito medo procura conhecer o sótão, olhando amedrontada para todos os lados; Pluft, que estava à espreita, aproxima-se devagarzinho e muito receoso)
PLUFT - Oh!
(A menina ao ver Pluft, desmaia)
MÃE - (Chegando) Ora, Pluft, quem mandou você aparecer?... Assustou a menina...
PLUFT - (Agarrando-se à saia da mãe) E agora?
MÃE - (Coloca a menina na cadeira) Agora temos que esperar que ela volte do
desmaio. Coitadinha! (Saindo) Vou procurar algum remédio para desmaio de gente. Fica aí tomando conta dela.
PLUFT - (Segurando a mãe) Eu?!
MÃE - (Voltando-se) Você, sim.
PLUFT - Mas eu tenho medo de gente, mamãe!
MÃE - Você tem medo dela?
PLUFT - Dela... Muito não. Mas dele, tenho sim!...
MÃE - (De dentro) Ele não volta tão cedo. A cidade é muito longe. (Pluft fica na
dúvida, vendo se segue a mãe ou não. Por fim, na ponta dos pés trata de observar a menina com curiosidade e medo. Um momento a menina se mexe e Pluft sai correndo, quase sem fôlego, voltando depois para tornar a observá-la. Pega nos cabelos da menina e sente prazer)
PLUFT - Gente é engraçado!... (Continua a observá-la até que a menina torna a mexer) Mamãe!
MÃE - (De dentro) Que é, Pluft?
PLUFT - Você está aí?
MÃE - Estou.
PLUFT - (Aliviado) Ah!... (A menina torna a mexer-se) Mamãe, quem sabe a gente pega isto aí e joga lá na noite e depois fechamos bem a porta e botamos o baú de tio Gerúndio, com tio Gerúndio e tudo dentro, bem em frente da porta para o marinheiro não voltar, e ficamos aqui, nós sozinhos, só fantasmas e gente não...
MÃE - (De dentro) Pluft, quem te ensinou a ser ruim assim? Foi o tio Gerúndio?
PLUFT - (Sempre olhando a menina em atitude de defesa) Não é ruindade não, mamãe... É medo!
MÃE - (De dentro) Se seu pai fosse vivo! Que fantasma corajoso ele era. (Aparecendo só de rosto e tornando a desaparecer) Você quer mesmo jogar esta menina fora pela janela, Pluft?
PLUFT - Acho que não quero não. Mas ela podia bem ir logo embora. (Rodeia a menina, muito aflito) Você não acha, mamãe? (Pluft levanta a cabeça da menina) Ooooooooh!
MÃE - (De dentro) O que é, Pluft?
PLUFT - (Radiante) Mas gente é uma gracinha, mamãe...
MÃE - (De dentro) Nem sempre, meu filho, nem sempre...
(Pluft se aproxima e cutuca a menina. Esta torna a se mexer um pouco... Pluft se assusta menos. Maribel torna a ver Pluft, se assusta, mas se levanta e fita Pluft, espantada. Os dois ficam, um em frente do outro, guardando certa distância, em atitude de mútua contemplação. Silenciosos, com respiração presa, ficam assim por algum tempo).
MARIBEL - (Tensa) Como é que você se chama?
PLUFT - (Tenso) Pluft. E você?
MARIBEL - Eu sou Maribel.
PLUFT - Você é gente, não é?
MARIBEL - Sou. E você?
PLUFT - Eu sou fantasma.
MARIBEL - Fantasma, mesmo?
PLUFT - É. Fantasma mesmo. Mamãe também é fantasma.
MARIBEL - (Relaxando) Engraçado, de você eu não tenho medo!...
PLUFT - (Idem) Nem e de você. Engraçado...
MÃE - (De dentro) Pluft!
PLUFT - É minha mãe. Com licença. Que é, mamãe?
MÃE - (De dentro) Com quem é que você está falando?
PLUFT - Com Maribel.
MÃE - Com quem?
PLUFT - (Gabando-se) Ora, mamãe, com gente... (Aproximando-se mais da menina com ar de velha amizade) Com Maribel.
MÃE - Ah! Então ela já acordou?
MARIBEL - Mas sua mãe também é fantasma?
PLUFT - Claro, ora! (Ofendido) Você queria que ela fosse peixe?
MARIBEL - E seu pai?
PLUFT - Meu pai era fantasma da Ópera.
MARIBEL - Fantasma da Ópera?
PLUFT - É. Trabalhava num teatro grande!... Agora ele morreu. Virou papel celofane. (Em tom confidencial) Mamãe não gosta que se fale nisto não. Ela fica muito triste, coitada. Quando papai morreu...
MARIBEL - Virou papel celofane?
PLUFT - É. Quando papai virou papel celofane, a família teve que deixar o teatro e vir morar aqui com tio Gerúndio.
MARIBEL - Quem é tio Gerúndio?
PLUFT - (Puxando-a para o baú) Tio Gerúndio dorme aqui dentro. Ele era fantasma de navio. (Os dois se sentam no baú).
MARIBEL - Fantasma de navio?
PLUFT - É. Dum navio fantasma. Ele trabalhava à beça...
MARIBEL - Será que era o navio de meu avô, o Capitão Bonança Arco-Íris?
PLUFT - É isto mesmo. Ele é meu tio. O fantasma do navio de seu avô é meu tio.
MARIBEL - Que coincidência, hem?
PLUFT - Que coincidência: seu avô e meu tio trabalharem no mesmo navio!
(Os dois ficam rindo por alguns momentos, contentes com a descoberta mútua.
Maribel cutuca o fantasminha e acha graça de ele ser diferente dela).
MARIBEL - (Lembrando-se) Oh! (Vai até a janela) O Perna de Pau vai voltar, meu Deus do Céu. Ele quer roubar o tesouro do meu avô e vai me levar para o mar...
PLUFT - (Imitando a mímica do marinheiro) Navegar... Navegar... Navegar... Não é?
MARIBEL - (Começando a chorar) Não... Não... Não... (Cai sentada à beira da
janela).
PLUFT - Que lindo! Que lindo! Que lindo!... Mamãe, mamãe... Acode aqui... a menina está derramando o mar todo pelos olhos!...
MÃE - (De dentro) Ela está chorando, meu filho.
PLUFT - Que lindo é chorar, mamãe... Também quero!
MÃE - (De dentro) Fantasma não chora, Pluft. Senão derrete. (Chegando) Vá buscar um pano para enxugar os olhinhos dela.
PLUFT - (Sai e torna a voltar) Para pegar o choro dela?
MÃE - É. (A mãe fantasma passa a mão na cabeça da menina, que se assusta ao vê-la)
Ah! Tinha me esquecido. (Formaliza-se toda para se apresentar. Põe na cabeça um chapéu fora de moda) Sou a mãe de Pluft. (cumprimentos) Aceita um pastel de vento? (Sai)
PLUFT - (Chegando com um pano) Toma para você pegar seu choro.
(Dona Fantasma volta com uma bandeja cheia de pastéis imaginários que oferece ao mesmo tempo come).
MARIBEL - Muito obrigada, senhora Fantasma, a senhora é muito gentil. Mas estou tão nervosa, que nem posso comer. Tenho medo do marinheiro Perna de Pau. Ele quer roubar o tesouro do vovô Bonança e me levar para o mar. E meus amigos, João, Julião e Sebastião, que vinham para me salvar, desapareceram... (Desanda a chorar)
(Dona Fantasma, muito comovida, mas sempre mastigando, vai saindo meneando a cabeça, mas interrompida por Gerúndio).
GERÚNDIO - (Levantando a tampa do baú) Pastel! (Senhora Fantasma chega até ele e oferece. Gerúndio faz que tira uns três e torna entrar no baú, sempre com sono. Senhora Fantasma sai)
MARIBEL - Deliciosos os seus pastéis de vento, dona Fantasma!
MÃE - (Aparecendo só de rosto) Não tem de quê.
MARIBEL - Se meus amigos João, Julião e Sebastião não chegam, o Perna de Pau vai me levar para o mar...
PLUFT - Mas onde estão seus amigos?
MARIBEL - Não sei. Na certa estão me procurando aí pela praia...
PLUFT - Quem sabe, tio Gerúndio pode dar um jeito? Ele é tão sabido.
MARIBEL - Será que ele ajuda a me livrar do Perna de Pau?
PLUFT - Vamos perguntar. (Abre a tampa e chama) Tio Gerúndio! Tio Gerúndio! (Desanimado) Está roncando de sono. (Gerúndio tenta se levantar, mas apenas se ajeita melhor para continuar a dormir) Não adianta; ele agora só gosta de dormir e de pastel de vento...
MARIBEL - (Saindo) Então tenho que fugir depressa.
PLUFT - Sozinha nesta praia branca?!
MARIBEL - É.
PLUFT - Neste escuro preto?!
MARIBEL - É. Já vou, antes que volte o Perna de Pau.
PLUFT - Espera! (Pára e respira fundo) Pronto! Tomei coragem. Mamãe, mamãe... Eu vou. Eu vou ao mundo procurar os amigos de Maribel. (Entra a mãe)
MÃE - (Numa efusão de alegria) Meu Filho! (Abraçam-se) Se seu pai fosse vivo, ficaria orgulhoso de você. (Sai rápida)
PLUFT - Vou fingindo de gente. Vem me ajudar, Maribel. (Põe a cartola e o fraque que estão pendurados na cabide ajudado por Maribel).
MÃE - (Chegando com uma malinha) Toma aqui, uns pastéis de vento para vocês comerem no caminho. (Ajeita o filho) Cuidado com o sol para não te derretes... Procura o vento sudoeste que é o mais agradável. Trata de ser um fantasminha decente, sim? Só prega susto naqueles que merecerem. Se encontrares algum outro fantasma assustando alguém, procura outra gente para assustar. Há trabalho para todos. E volta um fantasma de verdade. Tenho certeza de que vais gostar do mundo. Abre bem o olho para veres as coisas bonitas que existem por aí e cuida bem da menina.
PLUFT - (De mão dada com Maribel) Sim, mamãe... Sim... Adeus! (Toma a benção da mãe) Vamos, Maribel, vamos procurar seus amigos.
MARIBEL - Adeus, senhora Fantasma. Voltaremos para procurar o tesouro. Nunca vi família mais simpática, muito obrigada...
PLUFT - Vamos, Maribel!... Iiiiii! Está me nascendo uma coragem!
MÃE - (Correndo ao telefone) Zero, zero, zero, zero, alô! Prima Bolha querida,
imagine que o meu Pluft resolveu ir!!! Sim, Sim... Tal pai, tal Pluft! Que coragem, hem, prima Bolha? Que coragem!... Que coragem...
(Na disparada entram Pluft e Maribel).
PLUFT - (Ajoelhando-se aos pés da mãe e agarrando-se à sua saia) Lá vem ele, mamãe, lá vem ele... Que medo! Que medo! Que medo!...
MÃE - (Desiludida) Pluft!...
PLUFT - Mas ele é enorme, mamãe!
MARIBEL - (Pondo a mordaça e sentando-se na cadeira) Depressa, para ele não desconfiar...
(Pluft e a mãe ajudam com grande aflição a amarrar a menina enquanto já se ouve o canto do Perna de Pau)
PERNA DE PAU –
A menina Maribel... bel... bel...
Tem os olhos cor do céu... céu... céu...
E os cabelos cor de mel... mel... mel...
(Pluft e a mãe desaparecem. O marinheiro entra com um castiçal).
PERNA DE PAU - Ah! (Tira a mordaça da menina) Você ainda está acordada, minha bela? Pois agora podemos procurar a noite toda... Trouxe três velas... De manhãzinha sairemos para navegar... Navegar... Navegar... (Olhando para o encosto da cadeira)
Que é isto? O laço afrouxou? (Deixa o castiçal e começa a apertar o laço. Pluft, nas pontas dos pés, apaga a vela e corre de novo para o seu lugar; a cena escurece) Oh! O vento apagou a vela. (Tira uma caixa de fósforos do bolso e volta a acender a vela)
Vamos começar a busca. (Ilumina uma velha espada que está pendurada na parede)
Ah! Cá está a espada do Capitão Bonança! Agora é minha. (Pega a espada, baixa o castiçal e simula uma luta de esgrima, depois, satisfeito, coloca a espada na cintura.
Torna a segurar o castiçal e, sempre procurando, dirige-se para o lugar onde está Pluft, atrás da cortina).
MARIBEL - Ai!
PERNA DE PAU - (Virando-se para ela) Que é? (Pluft aproveita o momento e torna a apagar a vela) Apagou de novo! O que foi, hem, menina?
MARIBEL - (Disfarçando) Estou com medo...
PERNA DE PAU - Medo? Perto do Capitão Perna de Pau? (Risada) Ah! Ah! Ah! Foi vento (Acende de novo) Nem vento pode com o Capitão Perna de Pau. Pergunta ao mar, se eu tinha medo de vento. (Lá fora o vento começa a soprar) O vento é que tem medo de mim. (Ouve-se uma grande trovoada com ventos fortes. É o vento protestando. Perna de Pau estremece e corre para a janela para se desculpar) Eu estava brincando... Eu estava brincando. (O vento cessa. Perna de Pau dirige-se ao baú do tio Gerúndio) Ah! Aqui está o baú do velho Bonança. Onde é o lugar de guardar tesouros? (Demonstrando muita lógica) Lugar de guardar tesouros é baú, ora! (Começa a abrir o baú, e quando aproxima a vela, Maribel grita de novo)
MARIBEL - Ai!
PERNA DE PAU - O que foi, hem, menina? (Quando ele se vira para Maribel,
Gerúndio se levanta e sopra a vela) De novo! Raios me partam! Sacripanta! Com um marinheiro honesto não se brinca!
PLUFT - Obrigado, tio Gerúndio.
PERNA DE PAU - Quem falou aí? (corre para onde está Pluft)
GERÚNDIO - (Erguendo-se do baú) Não amola não, sim?
(Torna a deitar-se. Quando Gerúndio fala, Perna de Pau olha para o lado do baú e Pluft torna a apagar a vela)
PERNA DE PAU - (Correndo de um lado para outro amedrontadíssimo) Quem está aí? Quem está aí? Não tenho medo de ninguém, estão ouvindo? (Pluft e tio Gerúndio começam a rir acompanhados de outras gargalhadas de fora da cena) Quem é que está rindo de mim, já disse... (Pausa. Cessa o riso) Acho que estou ficando doido... Voltarei quando o sol nascer. Quero ver quem pode apagar o sol. O sol ninguém apaga, estão ouvindo? Vamos, menina, amanhã bem cedo voltaremos. (Desamarra Maribel com muita pressa e nervosismo) Quero ver quem pode apagar a luz do sol... O sol ninguém apaga, nem vento, nem... (saindo) fantasmas!
(Gerúndio levanta e dá uma enorme gargalhada. Perna de Pau sai assustadíssimo puxando Maribel).
PLUFT - Coitadinha... Coitadinha... Coitadinha... Lá vai ela puxadinha por aquele bruto... Seu cara de gente! Ela está tão branquinha que até parece fantasminha... Que gracinha! (Dando socos no ar com muita energia) Vou pegar aquele bruto, dar um soco nele... Mamãe, precisamos salvar a menina!
MÃE - (Entrando) Se ao menos pudéssemos saber onde está o tesouro!
PLUFT - Só tio Gerúndio sabe.
MÃE - Que é que adianta ele saber? Só quer dormir...
PLUFT - Xisto também sabe.
MÃE - É mesmo.
PLUFT - (Para o público) Xisto é meu primo, fantasma de avião. (Chamando) Xisto! Xisto! (Olham para cima. Ouve-se barulho de avião se aproximando)
MÃE - (Sempre olhando para cima) Xisto, você sabe onde está o tesouro do falecido capitão Bonança?... O quê? (barulhos de bolhas) Fale mais alto, ou então, desce!
PLUFT - Ele fica enjoado quando desce. O quê? Ele está falando em fantasmês. Pode falar português. Xisto, todo o mundo aqui é amigo. (À platéia) Ele é muito desconfiado. Está dizendo que quem sabe onde está o tesouro é a prima Bolha. É bem capaz. Prima Bolha trabalha na polícia secretíssima...
MÃE - (Que durante a conversa de Pluft com a platéia ficou conversando com Xisto em fantasmês) Obrigada, Xisto, vou telefonar já, já, para a prima Bolha. (Corre ao telefone) Zero, zero, zero, zero. Alô! Quer fazer o favor de chamar a dona Bolha de Sabão. Alô? Prima Bolha, querida, antes de mais nada quero avisar que amanhã é a reunião das senhoras fantasmas para incentivar o intercâmbio cultural entre gente e fantasma. (Barulho de bolhas muito agitadas).
PLUFT - (Que está aflitíssimo) Anda, mamãe. Não temos tempo a perder. Deixa de falar difícil e entra logo no assunto. (Um relógio bate três horas) Três horas da manhã! Está vendo? Coitadinha da Maribel... Não agüento mais. Vou sozinho ao mundo salvar minha amiga... (Trepa na janela e fica parado, a olhar, enquanto a mãe fala rapidamente fantasmês ao telefone. Ouve-se bem longe a canção do Bonança) Mais gente, mamãe! (Corre pela cena agitado) Os três amigos da Maribel. Só pode ser... Que animação!
MÃE - (Agitadíssima) Visitas! Pastéis! Pastéis!
(Sai)
PLUFT - Que medo, que coragem... Nem sei.
(Sai)
(A canção aumenta e surgem como no prólogo os três marinheiros)
SEBASTIÃO - Deve ser aqui! Veja no mapa, Julião!
JULIÃO - Veja você, Sebastião. (Troca o mapa pela vela de Sebastião)
JOÃO - (Com mapa) Uma casa perdida na areia branca perto de um mar verde... Deve estar perto... Pega a luneta, Julião!
JULIÃO - Estou vendo um mar calmo com alguma espuminha branca...
SEBASTIÃO - Então vamos!
JOÃO - (Desanimado) Já andamos muito... Pobre Maribel! Maribel é a neta...
SEBASTIÃO - Pobre Maribel! Pobre da netinha do grande capitão Bonança!
JULIÃO - Precisamos salvar a neta do nosso grande capitão Bonança!
JOÃO - (Tremendo de medo) Precisamos achar o tesouro da neta do grande capitão Bonança!
SEBASTIÃO - Viva o grande capitão Bonança!
TODOS - Vivaaaaaaaa!
SEBASTIÃO - (Para Julião) Vamos!
JULIÃO - (Para João) Vamos!
JOÃO - (Com voz fraquinha para alguém imaginário) Vamos!
(Os três recomeçam a cantar entrando na cena muito desconfiados. Procuram um pouco; João com muito medo, vai saindo até aparecer de novo na "avant-scène")
SEBASTIÃO - Deve ser aqui mesmo. Veja no mapa, João. (Não o encontrando, sai a procurá-lo e vai pegá-lo fugindo) João!
JOÃO - Pronto, Sebastião! (Faz continência)
SEBASTIÃO E JULIÃO - Um por todos e todos por um, vamos!...
JOÃO - Vamos! (João tenta fugir de novo, mas é agarrado por Sebastião)
JULIÃO - Pobre Maribel! Temos que ajudar os nossos amigos!
JOÃO - Temos?
SEBASTIÃO - (com certo medo também) Então vamos primeiro estudar o mapa.
(Sentam-se no proscênio e estudam o mapa. João, que segura o lampião, está tremendo de medo) Uma casa velha perdida na areia branca, perto do mar verde...
PLUFT - (Sem ser percebido pelos marinheiros que continuam observando o mapa) É aqui... É aqui... São eles... São eles, mamãe... Os amigos de Maribel!... Agora eles podem salvar Maribel!
MÃE - (Atravessando a cena afobada) Preciso contar tudo à prima Bolha...
(Desaparece)
PLUFT - Mamãe! Estou com medo! (Segue a mãe) Eles não vão me pegar, não?
MÃE - (De fora) Claro que não, filhinho. Estes são amigos.
(Pluft volta e espera, solenemente sentado no meio da cena).
SEBASTIÃO - (Levantando-se) Vamos!
(Meio amedrontados e contarolando a canção do Bonança para criarem coragem, eles tornam a entrar em cena; um por um, ao darem com Pluft, levam um bruto susto e se agarram em fila indiana rodeando o fantasminha).
SEBASTIÃO - Você está vendo, João?
JOÃO - Você está vendo, Julião?
JULIÃO - Você está vendo, Sebastião?
SEBASTIÃO - Estou.
JULIÃO - Estou.
JOÃO - Estou.
OS TRÊS - Um fantasma!
SEBASTIÃO - Deve ser sonho. (Esfrega os olhos)
JULIÃO - Deve ser sonho. (Mesmo)
JOÃO - Deve ser sonho. (Mesmo)
PLUFT - Uuuuuuu! (Os três dão um berro e saem correndo, cada qual para um lado, sendo que João desaparece pela janela; Pluft olha para eles com desprezo e sai com muita dignidade).
PLUFT - (Saindo) Medrosos!
SEBASTIÃO - (Voltando com cautela e olhando para o lugar onde estava Pluft) Ué! Desapareceu! Era sonho mesmo. (Julião também observa o ambiente e concorda com Sebastião)
JOÃO - (De fora) Uiiiiiii!
SEBASTIÃO - (Chamando) João!
JOÃO - Pronto, Sebastião!...
SEBASTIÃO - (Correndo com Julião para a janela, joga uma corda e os dois fazem a mímica de puxar João) Precisamos salvar a neta do nosso grande capitão Bonança!
JULIÃO - Precisamos achar o tesouro da neta do grande capitão Bonança!
JOÃO - (João voz fraca ao longe) Precisamos pegar o ladrão do tesouro da neta do grande capitão Bonança! (entra pela janela como se fosse puxado pela corda) Precisamos mesmo?
SEBASTIÃO - Viva o grande capitão Bonança!
JULIÃO - Viva o grande capitão Bonança!
JOÃO - Viva o grande capitão Bonança!
GERÚNDIO - (Abrindo o baú) Vivoooooo! (Os três, que estavam em lugares diferentes, correm e se abraçam no meio da cena).
SEBASTIÃO - Você ouviu?
JULIÃO - Você ouviu?
JOÃO - (Tremendo e querendo fugir) Ouvi, sim... Vamos embora!
SEBASTIÃO - (Segurando-o) Não! Precisamos salvar a neta do grande capitão
Bonança! (Os três começam a caminhar olhando o ambiente e murmurando como para se convencerem: "Precisamos salvar a neta do grande capitão Bonança..." Aos poucos recomeçam a cantarolar a canção do capitão, e formando uma fila indiana, põem-se a marchar como soldados. Pluft aparece e começa a marchar e esbarra no último. João, que olha para trás, leva um grande susto e desmaia. Pluft puxa o outro que também leva um susto e desmaia, e por fim faz o mesmo com o terceiro, Sebastião, que também desmaia).
PLUFT - Oh! Mamãe, os marinheiros se desmancharam...
(João, quando volta a si, dá de cara com Pluft observando-o; começa a tremer e sai correndo, mas dá com a mãe que vem entrando e torna a desmaiar).
MÃE - Que gente mais medrosa, meu Deus! Uns homens deste tamanho com medo de um fantasminha. No meu tempo de teatro conheci muita gente mais corajosa do que estes aí... (A senhora Fantasma atravessa o palco pulando os desmaiados) Coitadinha da Maribel. Arranjou cada amigo!...
PLUFT - (Observando Julião, que começa a acordar) Este também está vindo!
Marinheiro... Marinheiro...
JULIÃO - (Esfregando os olhos sem ver Pluft) Hem? Hem? (Começa a levantar-se, apoiandose em Pluft) Precisamos salvar a neta do nosso amigo o capitão Bonança!
PLUFT - Precisamos sim. E eu posso ajudar, marinheiro. Também sou amigo de Maribel, sabe? O Perna de Pau esteve aqui e...
JULIÃO - (Que ficou estatelado, afasta-se de um salto, não acreditando no que vê) Meu Deusinho do céu! Bebi tanto que já estou vendo coisa na minha frente... Bem que minha mãe dizia que um homem não deve beber demais... Juro que estou vendo coisas. Oh! Vejo monstrinhos à minha frente... Sebastião! Sebastiãozinho! Estou vendo monstrinhos, fantasmas... Assombração...
PLUFT - Marinheiro bobo, sem educação! Monstrinho é você, seu cara de gente! Vou contar à mamãe que você me chamou de monstrinho.
(Sai)
JULIÃO - (Procurando acordar Sebastião) Estou ouvindo coisas, Sebastião... Coisas...
SEBASTIÃO - Quem está vendo coisas aí? Oh! Acho que bebemos demais...
JULIÃO - Esta casa é mal assombrada...
SEBASTIÃO - Mas foi aqui que o capitão Bonança escondeu o tesouro... Precisamos salvar Maribel... Vamos esperar o Perna de Pau.
JULIÃO - (Continua a procurar) Juro que vi.
SEBASTIÃO - De novo?
JULIÃO - Um monstrinho à minha frente, falando coisas... Deve ser a bebida...
(Enxuga a testa, sentando-se no baú. Sebastião tenta acordar João)
SEBASTIÃO - Acorda, João. Precisamos salvar a neta do capitão Bonança.
JULIÃO - Precisamos mesmo, Sebastião?
SEBASTIÃO - Claro, Julião; ele era o nosso capitão!
(Julião dá mostras de que está sentindo qualquer coisa no baú. O baú começa a se mexer).
JULIÃO - UI... Ui... Ui... (Levantando-se) O que é que há neste baú? (O baú se abre e aparece Gerúndio).
GERÚNDIO - (Muito calmo) Quer fazer o favor de não se sentar em cima de mim? (Torna a abaixar a tampa com dignidade. Julião, completamente sem fala, tenta avisar Sebastião por meio de gestos e de urros, apontando freneticamente para o baú)
SEBASTIÃO - O que é que há com você, homem? Perdeu a voz? Está sem fala. (Sacode Julião) No baú? Nunca vi homem mais medroso do que você. Eu sim é que sou um bocado corajoso e... (Abre o baú).
GERÚNDIO - (Tornando a se levantar) Parem de me amolar!
(Mesmo jogo de perder a fala. Acordam João e tentam explicar. João não entende nada e começa a rir das caras e dos gestos dos companheiros. Depois se aproxima também do baú, sempre rindo, e, antes de poder levantar a tampa, surge Gerúndio, meio caceteado).
GERÚNDIO - Será possível! (Torna a fechar a tampa).
JOÃO - Uiiiiiii!
(Os três, sem fala, saem correndo, procurando gritar).
OS TRÊS - Socorro! Socorro! Socorro!
PLUFT - (Entrando com a mãe) Eles me chamaram de monstrinho, mamãe...
MÃE - Está aí uma coisa que eu não admito... Confundir-nos com monstrinhos... Há que salvar a dignidade da família. Onde estão eles?
PLUFT - (Da janela) Foram-se embora. E agora, mamãe, quem vai salvar Maribel?
MÃE - (Andando de um lado para o outro, muito aflita) Temos que dar um jeito... Temos que dar um jeito. (Pára e tem uma idéia) Vou telefonar de novo para a prima Bolha!
PLUFT - Lá vem o dia nascendo, mamãe. E vem chegando também o Capitão Perna de Pau com a Maribel Depressa...
MÃE - (No telefone) Bolha, querida, sou eu de novo... O quê? Sim... Sim... Está bem, então eu fico encarregada dos pastéis de vento?... Sei... Sei... E dos suspiros?... Música? Ah! Eu adoro música, querida; que ótimo! No tempo do finado, sabe, fazíamos sempre muito quarteto, muito quinteto, muito sexteto, muito oiteto... Ah! Quem vai cantar é a Aerofagia?!...
PLUFT - (Cada vez mais aflito) Mamãe, lá vem eles, deixa de conversa mole... (Para o público) O defeito de mamãe é falar demais ao telefone...
MÃE - Ah! Bolha, querida, é para te pedir de novo o favor de dizer onde é... Alô?! Cortaram a ligação... Alô? Oh! Meu Deus! Precisamos fazer alguma coisa. (Pausa) Acho que vou fazer pastéis! (Sai)
PLUFT - Só tio Gerúndio pode salvar a menina! (Abre o baú) Tio Gerúndio, se você ajudar a salvar a menina, mamãe disse que faz para você mil pastéis de vento!
GERÚNDIO - (Levantando-se) Pastel?! (Desanima e volta a dormir bocejando).
PLUFT - Nem pastel adianta mais, meu Deus! Quem sabe falando na noiva dele? Titio, quem lhe pede para ajudar a menina é a sua noiva, a senhorita Naftalina Vaporosa. (Gerúndio fica de pé, põe a mão no coração, sorri, mas o sono é mais forte e ele torna a deitar).
GERÚNDIO - Naftalina Vaporosa!
PLUFT - Tio Gerúndinho, será que o seu coração, que era tão bom, já está virando teia de aranha? Tio Gerúndio, estamos querendo salvar a neta do seu amigo, o Capitão Bonança Arco-Íris!
GERÚNDIO - (Ao ouvir o nome do Capitão Bonança, Gerúndio dá um salto, saindo do baú) Quem falou no meu amigo, o Capitão Bonança?
PLUFT - (Animadíssimo) O Capitão Perna de Pau quer roubar o tesouro dele.
GERÚNDIO - Bandido!
PLUFT - (No meio da maior aflição, muito contente) O Perna de Pau vai levar a neta Maribel do Capitão Bonança para o mar... navegar, navegar, navegar e casar com ela. Ela chorou muito e não quer ir não, mas o tesouro está aqui e ele vem aí agora...
GERÚNDIO - Quem vem aí?
PLUFT - O Capitão Perna de Pau, titio.
GERÚNDIO - O Perna de Pau é o pior bandido do mundo. Conheço muito bem aquele ladrão de sardinhas... Roubou todos os peixes do mar morto e agora quer o tesouro, hem? Pois ele vai ver... (tira um apito e começa a apitar para a janela).
PLUFT - Viva o tio Gerúndio! Isto é que é fantasma!
GERÚNDIO - Xisto! Xisto!
(Ouve-se um barulho de avião e Xisto cai do teto, em marionetes, vestido igual ao tio Gerúndio, com uma gola de marinheiro em cima da roupa de fantasma).
GERÚNDIO - Vamos chamar o primeiro batalhão de marinheiros fantasmas. Temos um servicinho para o nosso capitão Bonança. A neta dele está em perigo... Vamos acabar com a coragem daquele ladrão de sardinhas... Marinheiro de banheira. Vamos!
(Ouve-se ao longe uma corneta e um tambor chamando os marinheiros-fantasmas. Xisto torna a subir. Gerúndio põe o chapéu do velho Bonança, mas neste momento começa a ter sono de novo e deita na beira do palco).
MÃE - (Chega com uma bandeja e, ao ver Gerúndio querendo voltar a dormir) Não! Toma. Gerúndio, feitos agorinha mesmo com o melhor vento sudoeste!
GERÚNDIO - (Levantando-se atraído pelos pastéis) Vento sudoeste (prova um) bem salgadinhos. Deliciosos! (Ouve-se de novo a clarinada) O batalhão me espera! (Gerúndio vai até a janela, mas ainda volta duas vezes para comer mais pastéis. Depois sai pela janela).
MÃE - Vamos preparar mais pastéis para o batalhão! Meu Deus, quanto trabalho!
PLUFT - Este tio Gerúndio é o maior!
(Ouve-se o canto do Perna de Pau. Pluft e a mãe desaparecem).
PERNA DE PAU - (Entrando com Maribel, depois de acabar o canto) Agora está claro como o dia. Claro, ora, pois é dia, ora... (Ri de si mesmo. Empurra a menina, vai até a janela e canta) Viva o sol do céu de nossa terra! Vem surgindo atrás da linha da serra! (Parando de cantar bruscamente) Ora, lugar de tesouro é baú... Ah! Ah! Ah! Está vendo, minha bela, tudo agora está calmo... Podemos procurar tranqüilamente... (Ouvese a corneta ao longe, chamando os marinheiros do mar; Perna de Pau instintivamente se perfila fazendo continência) Ora, pensei que estivesse no meu navio! Que é isso?
Manobras no mar? (Vai até a janela e pega uma luneta) Mas não vejo nenhum navio ao largo... que vento esquisito está soprando na praia... (Enquanto ele espia pela luneta, Pluft corre e fala qualquer coisa ao ouvido de Maribel e desaparece deixando Maribel muito contente) Deve haver algum navio pelo porto... (pausa) O dia de meu navio chegará...Vamos ao tesouro. Vamos ao baú... Agora vou dar o golpe do baú... (Ri de si mesmo. Depois abre o baú, tira um travesseiro de matéria plástica e panos, que vai jogando para trás. Junto com os panos vem uma chave que Pluft apanha rapidamente e entrega-a a Maribel. Maribel, muito aflita, exibe a chave ao público, enquanto Perna de Pau descobre o tesouro) Lá está ele! lá está ele! É meu tesouro... (Tira o cofre com
muito cuidado, acaricia-o, ninando-o como se fosse uma criancinha: dorme nenen... Coloca-o sobre um banquinho e tenta abri-lo) A chave! Deve estar por aqui... (Começa a procurar, vai ao baú e descobre uma chave) Achei... Achei a chavinha do meu tesourinho! Era uma vez um marinheiro que recebeu um tesouro... (Tenta abrir o cofre com a chave e não consegue) Não é esta!... Quem viu a chave do meu cofre? Quem viu? (Perna de Pau procura a chave de gatinhas pela cena) Meu tesourinho, espera um minutinho, sim? Venho já te libertar deste cofre. Onde está a chave? Onde está a chave?... (De gatinhas ele sai de cena sempre dizendo "Onde está a chave?").
PLUFT - (Aparecendo) Depressa, Maribel! Venha se esconder aqui conosco enquanto tio Gerúndio não volta com os fantasmas do mar. A chave está conosco, o tesouro está salvo!
(Os dois desaparecem) (Ouve-se a canção do Bonança. Surgem os três marinheiros, desta vez armados com redes de caçar borboletas. Eles entram tomando ares de grande coragem, mas cantam a canção com voz trêmula e lenta).
SEBASTIÃO - Viva o grande capitão Bonança! (Sem muita convicção) Vivoooooo!
(Os três procuram por todo lado, dando finalmente com o tesouro).
OS TRÊS - O tesouro!
(Neste momento volta o Perna de Pau de gatinhas e, sem vê-los, redeia-os por entre as pernas, deixando os marinheiros estalados).
PERNA DE PAU - A chave. Preciso encontrar a chave...
(Continua sem ver os marinheiros e desaparece de gatinhas).
OS TRÊS - (Recuperando-se do susto) O marinheiro Perna de Pau!
PERNA DE PAU - (Voltando) Pelo amor de Deus! Procurem a chave...
OS TRÊS - A chave?!
PERNA DE PAU - A chave do meu tesourinho.
OS TRÊS - Oh!
PERNA DE PAU - (Já de pé, puxando os três para o proscênio) Quem achar a chave para mim, eu dou a neta do Capitão Bonança!
OS TRÊS - Bandido! É agora que vamos te pegar, ladrão de tesouro! Onde é que você prendeu a Maribel? Anda! Fale!
PERNA DE PAU - (Só então percebendo que está em frente dos três) Uiiii!...
(Os três marinheiros dão uma grande surra, com as redes em Perna de Pau, enquanto se ouve a corneta dos marinheiros-fantasmas. Os quatro se perfilam. Entra Pluft)
PLUFT - É o tio Gerúndio com os marinheiros-fantasmas! (Os quatro começam a tremer. O Perna de Pau desmaia, enquanto caem do teto vários fantasmas-marionetes fazendo grande barulho e confusão em cena. Os três, cambaleando, vão desmaiando, uns por cima dos outros. No meio da confusão, Pluft, Maribel, senhora Fantasma e Gerúndio dão as mãos aos fantasmas do mar e cantam em roda: "Eu fui no Tororó beber água não achei")
GERÚNDIO - (Apitando) Fantasmas ao mar!...
(Ouve-se o tambor e a corneta e os marinheiros fantasmas do mar sobem).
GERÚNDIO - (Dirigindo-se ao Perna de Pau, que começa a levantar) Levanta, seu medroso!
PERNA DE PAU - O fantasma do navio do Capitão Bonança! Eu só queria a chave do cofre... (quase chorando).
PLUFT - A chave está aqui, titio.
GERÚNDIO - Abra o cofre, Pluft.
(Pluft abre o cofre, enquanto Perna de Pau se precipita, arreda Pluft e tira do cofre um retrato, um papel e um rosário).
PERNA DE PAU - O retrato da neta Maribel! (Joga o retrato em cima de Maribel, que está ajoelhada perto de Pluft) Uma receita de peixe assado! (Joga a receita) Um rosário! (Faz o sinal da cruz com muito medo e levanta o rosário, deixando-o cair nas mãos de Pluft. Depois volta com avidez ao cofre) E o dinheiro? E o dinheiro?
GERÚNDIO - O dinheiro está no fundo do mar... Pode ir buscá-lo, Perna de Pau.
(Gerúndio apita. Ouve-se o toque da corneta) Os fantasmas do mar vão levá-lo ao tesouro que está enterrado no fundo do mar... (Os três fantasmas tornam a descer).
PERNA DE PAU - Não! Não! Não! Fantasmas não!... Fantasmas não!...
(Empurrando pelos fantasmas, Perna de Pau recua até a janela e desaparece. Os fantasmas se recolhem).
MÃE - (Surgindo com uma bandeja) Esperem! Esperem! Pastel de vento para todos! Pastel! (Também desaparece pela janela enquanto ainda se ouve sua voz fritando: Pastel!... Pluft e Maribel olham pela janela. Gerúndio boceja e volta ao seu baú. No proscênio começam a despertar os três marinheiros).
JOÃO - Maribel!
MARIBEL - João! (Os dois se abraçam no meio da cena. João torna a recuar e Maribel vê Julião) Julião!
JULIÃO - Maribel! (Julião se afasta, Maribel vê Sebastião)
MARIBEL - Sebastião!
SEBASTIÃO - Maribel! (Mesmo jogo)
(Pluft, muito contente, também se aproxima para ser abraçado, mas os três se afastam com medo).
PLUFT - Ei!
OS TRÊS - (Medrosos) Ei!
PLUFT - (Depois de uma pausa) Viva gente!
MARIBEL - Viva fantasma!
PLUFT - Viva gente!
TODOS - (Dando as mãos e fazendo uma roda em volta de Pluft) Viva fantasma!
PLUFT - (No meio da roda) Viva gente!
GERÚNDIO - (Saindo do baú) Viva o grande capitão Bonança!
TODOS - Vivaaaaaa!
(Todos sentados no chão batem palmas, enquanto Gerúndio descobre o retrato do grande capitão pendurado na parede, logo acima do baú coberto por uma rede).

FIM

9 comentários:

  1. adorei este testo eu li na minha escola amei por que e um texto que narra a vida de cada pessoa nesta historia bjs ate mais amo vcs ate

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  2. Precisava pra escola , vou fazer a peça , vou ser o João ;D mto obrigado

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  3. preciso ler isso pra uma apresentação vlw ai pela ajuda!!!!!! FLW

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  4. brigadaum tava pra minha aula da teatro sou o tio gerundio

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  5. vocês podiam fazer as falas da ( prima bolha )
    meu professor de teatro fez 21 falas

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  6. que legal eu sou Pluft gostei muito do personagem

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  7. Obg me ajudou muiito vou encenar na escola!!!

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